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Above 25

A vida adulta, depois dos 25.

Above 25

30
Mai20

O que eles não mereciam

Normalmente abstenho-me de comentar este tipo de assuntos pelo blog, não por não ter o que dizer, mas acho que até por ter demasiado para dizer. Ainda tenho que descobrir como se fala disto sem se começar a perder a paciência e sem deixar a raiva e a revolta conduzir as nossas palavras. Mas hoje é isso que vou tentar fazer.

 

Vou começar pela Beatriz Lebre. Vou começar por ela porque há uma coisa que temos em comum: somos mulheres. Na verdade há duas, porque eu também estudo Psicologia. É muito triste e lamentável o que lhe aconteceu. É inacreditável pensar que a vida lhe foi roubada  (e tão cedo) porque ela ousou dizer "não". Porque ela ousou não querer algo. Porque ela ousou agir sobre as suas preferências e não-preferências, como qualquer ser humano normal faz. E no entanto, histórias como esta continuam a acontecer vezes a mais, vezes suficientes para não surpreenderem. Chocarem, mas não surpreenderem.

Começo pela Beatriz porque sinto o que ela passou. Não o sei, porque estou aqui vivinha da silva e, mesmo com uma relação tóxica no meu passado, estou saudável e estou bem. Mas sinto-o. Como mulher, sinto-o, tal como acredito que todas as mulheres no país o sintam.

Ouço notícias destas e sinto medo. Medo que um dia a vida me seja tirada porque conheci o homem errado. Medo que o meu direito a dizer "não" seja a mesma coisa que me roube o último suspiro. Medo que continuem a existir pessoas que se achem de tal forma intituladas ao que quer que seja, que são capazes de assassinar alguém em prol dessa titularidade (se não lhes pertence, não pertence a mais ninguém). Agora foi a Beatriz. Amanhã pode ser a vizinha do primo da minha tia. Já foram tantas outras ao longo do ano e serão ainda mais, infelizmente. Sinto que temos que fazer alguma coisa mas é uma sensação de impotência tão grande que parece que não há nada que possamos fazer.

 

E agora quero falar do George Floyd. Dele, eu não posso dizer que saiba o que é. Eu sou uma mulher branca. Não sei o que é ser negra, não sei o que é viver com o preconceito dos outros em relação ao tom da minha pele. E não sei o que é viver num país onde casos como este se multiplicam cada vez mais, quase todos sem a resolução que deviam ter. Nada justifica aquilo que aquele polícia fez. Absolutamente nada. Como é que se deixa um homem imobilizado e que não representa perigo sofrer até ao último minuto? Como é que se deixa um homem morrer?

As pessoas dizem muito que ele nem sequer estava a ser detido por um crime grave, mas caramba, mesmo que estivesse. Seria detido, acusado e levado para a prisão pelo crime grave que cometesse. Isso não vem sequer ao caso em sentido algum. O que eu vi foi um homem, simplesmente um homem, a ser asfixiado, a pedir por ajuda, e a ser deixado morrer. A ser tratado como "lixo da sociedade", parece-me. E o facto de no começo as pessoas responsáveis não terem sequer sido detidas é revoltante!

Eu gostava de acreditar que o mundo está a melhorar, mas sinceramente, por razões que agora não são aqui relevantes, creio que o mundo na verdade vai piorar um pouco mais daqui para a frente. Já se começam a ver evidências disso.

Só gostava que a cor com que uma pessoa nasce não ditasse uma possível sentença de morte.

 

Gostava de não viver com medo, como mulher, e gostava que eles, pessoas de raça negra, não vivessem com medo também. Mas este mundo vai de mal a pior.

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